A Reforma Tributária pode mudar a forma como empresas do Simples competem no mercado — impactando preço, margem, crédito tributário e competitividade nas operações entre empresas.
Durante muitos anos, o Simples Nacional foi visto como um caminho naturalmente vantajoso para micro e pequenas empresas.
Menos burocracia, unificação de tributos e uma carga tributária, muitas vezes, mais acessível fizeram com que milhares de empresários enxergassem o regime como a escolha mais lógica para crescer.
Mas a Reforma Tributária trouxe uma nova variável para essa equação:
o crédito tributário.
E é justamente aqui que começa uma das discussões mais importantes — e mais perigosamente simplificadas — da transição para o novo modelo tributário brasileiro.
A Reforma deixou de ser teoria
Com a publicação dos regulamentos da CBS e do IBS no final de abril de 2026, a Reforma Tributária entrou oficialmente em uma nova fase.
O cronômetro começou.
A partir de 01 de agosto de 2026, passa a valer o destaque obrigatório nas notas fiscais de:
- 0,9% de CBS
- 0,1% de IBS
Embora 2026 ainda seja considerado um período de transição e neutralidade tributária — sem recolhimento efetivo — o impacto operacional já começou.
E isso muda bastante coisa.
Porque, na prática, as empresas já deveriam ter começado a revisar:
- emissão de notas fiscais
- parametrizações fiscais
- sistemas e ERPs
- cadastro de clientes e fornecedores
- contratos comerciais
- formação de preço
- e, principalmente, estratégia tributária
O erro agora não estará apenas no imposto.
👉 Ele estará no processo.
O debate que está confundindo empresários
Nos últimos meses, uma ideia começou a circular com força:
“Quem permanecer no Simples vai perder competitividade.”
Mas a análise não é tão simples assim.
Muitos conteúdos têm resumido o tema a uma lógica superficial:
- “CBS por fora gera crédito”
- “CBS por dentro não gera”
E isso pode levar empresários a decisões precipitadas.
O que pouca gente está explicando com profundidade é que:
empresas do Simples também poderão gerar crédito tributário.
A diferença estará:
- na proporcionalidade desse crédito
- na forma escolhida de tributação
- no perfil da operação
- e na posição da empresa dentro da cadeia de negócios
Ou seja:
o ponto principal talvez não seja apenas “quanto imposto sua empresa paga”.
Mas quanto valor tributário ela consegue entregar para quem compra dela.
E isso muda completamente a lógica da competitividade.
O impacto não será igual para todos
Empresas que vendem diretamente para o consumidor final (B2C), por exemplo, podem sentir impactos diferentes de empresas que operam no modelo B2B, vendendo para outras empresas que aproveitam créditos tributários.
Na prática:
quanto mais sua empresa estiver inserida em uma cadeia que utiliza crédito, maior tende a ser a relevância estratégica dessa análise.
E aqui nasce uma reflexão importante:
será que o mercado continuará olhando apenas preço?
Ou começará a olhar também capacidade de geração de crédito?
Dependendo do setor, isso pode alterar margem, posicionamento comercial e até competitividade entre empresas do mesmo segmento.
Setembro de 2026: um ponto decisivo para empresas do Simples
Existe um detalhe extremamente importante que muitos empresários ainda não perceberam:
em setembro de 2026, empresas do Simples Nacional deverão definir seu enquadramento no novo modelo da CBS.
Na prática, será necessário optar entre:
- permanecer com a CBS dentro do DAS
ou - aderir ao modelo de tributação “por fora”, dentro da lógica do IVA
E essa definição pode impactar diretamente:
- crédito tributário
- precificação
- margem operacional
- competitividade
- fluxo financeiro
- relacionamento comercial com clientes
Por isso, essa escolha não deveria ser feita apenas olhando alíquota.
Ela exige análise estratégica.
Porque o maior risco agora pode ser deixar para a última hora uma decisão que precisará estar definida em setembro.
Então sair do DAS será obrigatório?
Não.
E esse talvez seja um dos pontos mais importantes de toda essa discussão.
A Reforma Tributária não criou uma resposta única.
O que ela criou foi a necessidade de uma análise muito mais estratégica e individualizada.
A melhor escolha dependerá de fatores como:
- setor de atuação
- perfil dos clientes
- margem da operação
- cadeia de crédito
- estrutura da empresa
- posicionamento comercial
- e capacidade de gestão tributária
Para algumas empresas, permanecer no modelo tradicional do Simples pode continuar sendo extremamente vantajoso.
Para outras, o modelo “por fora” pode gerar mais competitividade dentro da cadeia.
O ponto central é:
não existe fórmula pronta.
Existe estratégia.
🧭 Radar BÓBICE
Na rota do empresário
📚 Base legal:
• Decreto nº 12.955/2026 — Regulamentação da CBS
• Resolução CGIBS nº 6/2026 — Regulamentação do IBS
• Portaria Conjunta MF/CGIBS nº 7/2026 — Disposições comuns entre CBS e IBS